A transformação social através a profissão de ferreiro

Trabalho de registro das lembranças de antigos ferreiros que falam do seu trabalho e da relação Passado/Presente e Cidade/Campo.
Reflexão sobre o aspecto prático da metodologia da entrevista.

Escolhemos trabalhar com o tema das velhas profissões, pois se tratava do que nos parecia ser a melhor abordagem para dissecar o tema da transformação social em sociologia.
   Com efeito, através de uma profissão ancestral tal como aquela de ferreiros, é possível observar todos os determinantes da transformação social. Ou seja, estudar a profissão de ferreiro é compreender o processo e as transformações sociais da nossa sociedade. A partir de um exemplo muito reduzido em escala microeconômica, é possível melhor apreciar, com base em um conceito mais amplo, as imbricações e os determinantes em uma perspectiva mais teórica e macroeconômica dos fatores da transformação social. Assim, partindo de um objeto de estudo bem concreto, pudemos compreender melhor, entre outras, as implicações das inovações e, portanto, do progresso técnico na mudança social, mas em forma concreta e empírica que afeta o porvir do nosso objeto de estudo: O ferreiro.
    Em nosso trabalho preparatório, em um primeiro momento, ativemo-nos a compreender a profissão de ferreiro através dos artigos e obras sociológicas, sobretudo, interessando-nos por obras mais teóricas sobre a transformação social, tais como o livro de Guy Rocher: “Le changement social” ou ainda “Production de la société”, por Alain Touraine. Contudo, acreditamos que em função de um conhecimento ainda demasiado geral do assunto, orientamo-nos para uma problemática demasiado ampla ou talvez até mesmo demasiado vaga do nosso objeto de estudo. Todavia, em virtude da aproximação com o campo e o nosso microcosmos de estudo, atualmente é chegado o momento de reformular as nossas hipóteses iniciais.
     Primeiramente, a escolha do nosso microcosmos (pessoas já com idade avançada) possibilitou-nos interrogarmo-nos acerca do processo de mudança social. Com efeito, através da nossa conduta essencialmente biográfica, foi a precisamente a história de uma profissão que nos foi relatada com base em diferentes orientações pessoais associadas às mutações do sistema produtivo.
    Nosso trabalho pode igualmente assumir uma dimensão histórica, em função do olhar particular que apresentam os nossos interlocutores, pois isso também se torna uma representação subjetiva da nossa história. De fato, a dimensão PASSADO-PRESENTE está fortemente representada por estes interlocutores que vivem as suas lembranças, fazendo parte “de outra época”, como eles gostam de nos dizer com ternura.
    Teria sido interessante definir previamente o que subentendemos por profissões artesanais. Poderíamos defini-las como segue: são as profissões que possuem uma qualificação principalmente manual e que consistem em um conjunto de saber técnico e de sabedoria tradicionalmente adquirido através do aprendizado e da experiência profissional, proporcionando a produção de um objeto ou de uma gama de objetos complexos ou ainda a prestação de serviços específicos. É interessante definir assim o nosso objeto de estudo no intuito de compreendermos melhor a evolução da divisão do trabalho.
    A profissão corresponde a uma divisão do trabalho tal, que possa ser, na maioria das vezes, exercida por um indivíduo de modo autônomo. Entretanto, Emile Durkheim mostra que a divisão do trabalho é um fenômeno social e econômico que constitui um dos aspectos essenciais da evolução das sociedades humanas.
     A especialização das tarefas e o aumento da produtividade correlatos mostram que se trata de uma questão de organização ou, no vocabulário da Sociologia, de solidariedade. Assim, Durkheim busca mostrar e estabelecer uma relação entre os progressos da divisão do trabalho, testemunhando da passagem de sociedade de solidariedade mecânica para sociedades fundadas em uma solidariedade de tipo orgânica, ou seja, a passagem de sociedades do tipo tradicionais para as sociedades modernas. Nas sociedades fundadas na solidariedade mecânica, esta integração se baseia na semelhança. Os indivíduos, à imagem dos segmentos sociais, são similares. Como as atividades de produção econômica são pouco diferenciadas, os indivíduos efetuam tarefas próximas e são facilmente substituíveis. Nas sociedades fundadas na solidariedade orgânica, a especialização das tarefas e a diferenciação dos papéis sociais são muito mais importantes. Desta vez, a coesão do todo está assente na complementaridade, de certo modo semelhante a um organismo vivo em que cada órgão cumpre uma função específica, os indivíduos desempenhando papéis próprios cuja especialização os torna dificilmente substituíveis. Sendo com maior ênfase complementares, eles são igualmente mais dependentes entre si. Todos são indispensáveis para o funcionamento da organização social.
    Por exemplo, um artesão realiza todo um conjunto de tarefas para produzir um objeto, ao passo que, para produzir este mesmo objeto de modo massivo, a indústria decompõe o processo em operações elementares desempenhadas de modo repetitivo por vários operários especializados. Entretanto, todos são indispensáveis para que o produto saia da linha de montagem.
    Assim, em nosso caso, a evolução das atividades do ferreiro suprime a solidariedade tradicional com o mundo agrícola. Ele tenta se adaptar às novas necessidades da agricultura, tornando-se comerciante ao desempenhar o papel de intermediário entre a fábrica e o agricultor, buscando atender a uma demanda por máquinas cada vez mais específicas e complexas. Sua reconversão é parcialmente um sucesso, pois embora adaptando-se às novas exigências do sistema de produção, a sua demanda em matéria de ferramental é menos imperativa que a ferragem dos cavalos ou a forja das pontas de arados.
    Assim, pouco a pouco, o ferreiro se dessolidarizou da unidade que podia constituir com o mundo rural, tornando-se um elo do sistema agrícola do qual é possível se afastar ou se subtrair. Quanto mais as relações com o ferreiro se desfazem, mais a sua situação se torna precária (por exemplo, prefere-se comprar diretamente os equipamentos na feira agrícola local, do que ter que pagar um valor suplementar devido à comissão do ferreiro).
O ferreiro encontra-se cada vez mais à margem do mundo camponês, tornando-se uma entidade autônoma e independente do sistema agrícola.
    Entretanto, o ferreiro não se orientou exclusivamente para a venda de implementos agrícolas, alguns preferiram se voltar para a fabricação de ferragens de portas e janelas, outros para encanamentos ou para a serralheria, devido à crescente demanda associada a novas profissões com intervenção na construção de inúmeros obras na periferia das cidades. Portanto, assistimos a uma explosão da especialidade profissional em diversas profissões que atualmente se tornaram inteiramente independentes e autônomas. Assim sendo, isso corresponde a uma nova divisão do trabalho sob a pressão da demanda e igualmente sob o impulso de um progresso técnico sempre em busca de novas áreas.
    A evolução técnica seria ela um fator explicativo da transformação social? Em todo caso, trata-se de um fator ao qual se recorre com muita frequência. Tem-se o hábito de atribuir ao que se denomina revolução tecnológica as grandes reviravoltas vividas pela sociedade moderna nos últimos dois séculos. A industrialização, a urbanização, a elevação da produtividade, a aceleração dos transportes e das comunicações são somente as manifestações mais aparentes destas transformações. Na realidade, é a totalidade da vida humana e social que sofreu o impacto da revolução tecnológica: vida familiar, vida religiosa, comportamentos políticos... Contudo, um tema recorrente aparece de modo subjacente em nosso trabalho e poderia ser objeto de estudos mais profundos: Trata-se da relação CIDADE/CAMPO e, mais precisamente, dos impactos do progresso técnico na vida rural e a sua influência no êxodo rural.
    Outro tema inerente à nossa pesquisa é o peso da hereditariedade nas trajetórias individuais dos nossos interlocutores. Assim, a maioria deles são originários de uma família cujo patriarca era ele próprio ferreiro. Portanto, é possível deduzir que o peso das origens sociais é um forte determinante na história de vida dos nossos ferreiros, levando-nos a um questionamento acerca da evolução da mobilidade social ao longo das gerações.
    Deste modo, do nosso evidenciam-se três tipos de ferreiros: o ferreiro-agricultor, o ferreiro-comerciante e o ferreiro-artesão. A partir desta tipologia, seria interessante poder completar este estudo que constata o declínio do artesanato tradicional em meio rural com uma investigação voltada para os artesãos modernos que souberam se adaptar ao meio urbano.   

 

“A transformação social através da profissão de ferreiro”, DEUG (Diploma de estudos universitários generalistas) de Sociologia, Universidade Toulouse le Mirail, 1998, 145P (sob a direção do orientador Jean-Pierre Rouch)

couverture du dossier de sociologie sur le changement social à travers le métier de forgeron

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